quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Amamentar faz bem, também, à saúde da Mãe!

Já todos sabemos das muitas vantagens e benefícios da amamentação; a que se transcreve de seguida é mais uma, resultante de mais uma pesquisa efectuada nos EUA, para engrossar a lista de motivos que podem servir de incentivo, às mães, para amamentarem os seus filhos.
"As mulheres que amamentam os filhos reduzem as suas possibilidades de contrair diabetes, segundo as conclusões de uma investigação publicada pela revista da Associação Médica Americana.
A amamentação absorve muita energia e altera o metabolismo da mulher, estabilizando os níveis de açucar no sangue e aumentando a sensibilidade do corpo à insulina. O estudo revela ainda que quanto mais tempo amamentarem, mais reduzido será esse risco.
O trabalho foi dirigido por Alison M. Stuebe, do Hospital Brigham and Women de Boston e envolveu 157000 enfermeiras norte-americanas."

in Destak, 24-11-2005

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

Episiotomia


Este é o termo técnico para o corte efectuado ao períneo no momento do parto. Muitas de nós não o conhece sequer por este nome. Muitas de nós não sabe que este procedimento é considerado um acto cirúrgico e, como tal, deveria ser autorizado por nós para ser executado. Muitas de nós nunca questionou este procedimento
À maioria de nós nunca foi esclarecida a sua (in)utilidade, as suas consequências nefastas, nem formas que temos para promover a elasticidade do períneo, com o objectivo de o manter intacto num parto vaginal.
É com o intuito de divulgar evidências ciêntificas que demonstrem a não necesssidade do uso rotineiro da episiotomia, que aqui deixamos o link para um estudo, efectuado em Portugal, na Maternidade Dr. Alfredo da Costa.

www.ordemdosmedicos.pt/ie/institucional/publicacoes/ACTA/6-2003/2205%20Episiotomia.pdf

sábado, 5 de novembro de 2005

WORKSHOP

WORKSHOP
AS DOULAS NA HUMANIZAÇÃO DO PARTO EM PORTUGAL
Lisboa, 20 de Novembro, 2005

“Na sociedade contemporânea, em que o parto sofreu um processo de
industrialização, e foi reduzido em grande parte a um acto médico, urge
redescobrir a verdadeira natureza de dar à luz”
Carla Guiomar
Data e Horário:
20 de Novembro (Domingo), das 10h às 12.30 e das 14h às 17h.

Local:
Lisboa, Delegação Regional do IPJ, Rua de Moscavide, Lote 47101, Lisboa, Expo.

Temas:
O que é um parto humanizado
A necessidade urgente de humanização do parto em Portugal
As doulas: benefícios e vantagens
O corpo da mulher como máquina e como objecto
O parto fisiológico
As necessidades básicas da mulher em trabalho de parto
Controvérsias hospitalares

Destinatários:
Profissionais de saúde, grávidas, público em geral.

Nº de participantes:
35 (Admissão por ordem de chegada da inscrição)

Formadora:
Doula Luísa Condeço, Co-Fundadora da Associação Doulas de Portugal

Preço de Inscrição:
Até 11 Nov. 2005
– 50 euros
Até 17 Nov. 2005 – 70 euros
Transferência bancária p/ NIB 0036 0308 9910000299407
ou cheque à ordem de Maria Luísa Condeço

Contactos: 967624505 / 916826150

Fazer copy/paste da ficha de inscrição e enviar para: doulaluisa_c@yahoo.com

Nome:
Profissão:
Morada:

Telefone:
Móvel:
E-mail:

Motivo da inscrição:

domingo, 30 de outubro de 2005

Induções...

Hoje em dia, é proposto a muitas mulheres a indução do parto, quando o bebé não quer nascer a partir da 40ª semana... e às vezes até antes (dizendo-se que já pode nascer, já está de termo...), sem que haja qualquer situação clínica que o justifique. Muitas mães aceitam (algumas até o sugerem, de tal forma a indução está banalizada)... estão cansadas de estarem grávidas, já se sentem desconfortáveis, ansiosas por conhecerem o seu filho, e geralmente não questionam a proposta de um obstetra.

Mas o facto de se estar no final da gestação, não significa que o bebé esteja preparado para nascer... só significa que sobrevive sem problemas aparentes. Mas o que é que nós desejamos para os nossos filhos? Que simplesmente sobrevivam? Ou que nasçam no momento que lhes é mais favorável, aquele que eles próprios determinam em harmonia com o corpo da mãe?

As mulheres não são todas iguais, e os bebés não amadurecem todos no mesmo “prazo”, tal como os frutos de uma mesma árvore não amadurecem todos ao mesmo tempo.
Se o bebé ainda não nasceu não será porque ainda não está preparado para nascer? Vivemos numa sociedade cada vez mais imediatista, consumista e crente na tecnologia... e isso também se reflecte na forma como temos os nossos filhos.
Se procurarmos as respostas no conhecimento da fisiologia, sabemos que é o bebé que deve dar o sinal para iniciar o trabalho de parto. Quando os seus pulmões atingirem o auge da maturidade ele liberta hormonas que despoletam o trabalho de parto, estimulando o hipotálamo da mãe a produzir a hormona natural oxitocina, que por sua vez provoca as contracções uterinas.
Isso significa que o bebé vai nascer no momento que respeita o desenvolvimento óptimo de cada criança, escolhido por ela.

Que tipo de mensagem enviamos ao nosso filho quando não lhe deixamos que ele próprio faça aquilo para que foi biologicamente destinado? É um primeiro acto de auto-determinação que lhe é negado. “Não vais nascer quando quiseres, mas sim no dia que dava jeito à mãe ou ao médico”.
Não existe uma data fixa para o nascimento e não há razão para se pensar que um bebé tem forçosamente que nascer até às 40, às 41 ou mesmo às 42 semanas, até porque às vezes a idade gestacional não está bem definida. Deve-se considerar um período provável para o nascimento (entre as 38 e as 42 semanas após o primeiro dia do último período menstrual) e não uma “data prevista” pois isso simplesmente não existe. Ainda assim, no final de uma gestação prolongada, deve-se acompanhar com maior atenção o bem-estar do bebé, contando os movimentos, ouvindo o coração diariamente, verificando se há perdas de líquido com cor esverdeada, fazendo uma ecografia em caso de ansiedade ou dúvidas.
Se estiver tudo bem, para quê induzir? A indução tem riscos sérios e uma grande parte das induções falha resultando em cesariana ou partos vaginais complicados, instrumentalizados e muitas vezes traumáticos para mãe e filho. Quando a indução resulta é porque muito provavelmente o bebé estava para nascer nessa altura de qualquer modo. Então não valerá a pena esperar?

Num parto induzido, é administrada à mulher pitocina (oxitocina artificial) através do soro intravenoso, com o objectivo de imitar a acção da oxitocina natural. Esta hormona sintética liga-se aos receptores uterinos para a oxitocina natural, inibindo a sua produção e recepção normal. As contracções induzidas artificialmente são mais dolorosas, mais agressivas para o útero (aumentando o risco de ruptura uterina) e mais perigosas para o bebé, que pode entrar em stress mais facilmente, o que é muitas vezes sinalizado pelo CTG e lá se vai para a cesariana, com todas as desvantagens que esta grande intervenção cirúrgica acarreta para o bebé e para a mãe. Além disso a pitocina, ao contrário da oxitocina natural segregada pelo nosso hipotálamo, não atravessa a barreira cerebral da mãe e portanto não tem efeitos comportamentais ao nível do vínculo precoce mãe-bebé.
Como as contracções induzidas artificialmente são mais dolorosas e arrítmicas, a mãe sente maior necessidade de recorrer à anestesia epidural, que também acarreta um conjunto de riscos para mãe e filho, nomeadamente aumenta a probabilidade de um parto instrumentalizado e da separação precoce mãe-filho, para observação e intervenção, interferindo com o vínculo precoce e o sucesso da amamentação e potenciando também situações de depressão materna pós-parto.
No parto fisiológico, quando se deixa o nosso próprio corpo conduzir o processo, as contracções naturais são mais suaves, rítmicas e adaptam-se às necessidades do bebé. Vão crescendo gradualmente em duração e intensidade, intermediadas por intervalos de descanso. Quando não se interfere com este processo, o nosso organismo segrega juntamente com a oxitocina, outras hormonas benéficas, nomeadamente as endorfinas que atenuam a sensação de dor e suavizam o processo para mãe e filho.

Muitos partos traumáticos e cesarianas poderiam ser evitados hoje em dia, se as mulheres fossem devidamente informadas dos riscos dos procedimentos e se se responsabilizassem por fazer as suas próprias escolhas informadas e conscientes, ao invés de se demitirem dessa responsabilidade e assumirem que um profissional de obstetrícia é quem melhor pode decidir por si. Os médicos com uma postura humanista sabem que devem encorajar a mãe a tomar as suas próprias decisões, com base nos factos e nas evidências científicas, e não em conveniências pessoais e institucionais. Para contrariarmos um sistema industrializado de nascimentos, para que o nascimento em Portugal caminhe no sentido de ser uma experiência positiva, gratificante e verdadeiramente saudável e segura para cada mulher e seus filhos, nós mulheres precisamos de ter a informação e o apoio necessário nessa altura das nossas vidas e resgatarmos para nós um papel central na condução dos nossos partos.

Mais informação:
http://hencigoer.com/articles/ ver os artigos sobre Induction of labour
http://www.motherfriendly.org/Downloads/induct-fact-sheet.pdf Riscos da Indução
http://www.maternitywise.org/mw/topics/birthsetting/ Fisiologia do parto – as hormonas naturais
http://www.holistika.net/articulo.php?articulo=54019.html Violência hospitalar – o uso da pitocina

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

O Sol e a Gravidez - pesquisa

Exposição solar materna, durante o 1º trimestre está associada a alto peso, à nascença, em bebés humanos

Palavras-chave da pesquisa: peso à nascença; temperatura ambiente; gestação; factor de crescimento insulina; crescimento fetal

Abstracção/Hipótese

Foram geradas 2 hipóteses alternativas para comprovar a variação sazonal no peso à nascença de bebés humanos, em países industrializados. A 1ª, corresponde à teoria hipotética de que uma baixa temperatura ambiente durante o 2º trimestre de gestação resulta num decréscimo do peso à nascença.

A 2ª, corresponde à teoria hipotética que a exposição à luz solar durante o 1º trimestre resulta num aumento de peso à nascença.
Estas 2 hipóteses foram testadas para que se determinasse qual, ou se nenhuma, comprovava a existência de uma variação sazonal no peso à nascença em bebés de termo. Dados relativos ao peso à nascença, recolhidos num período de 5 anos, foram analisados em função de intensidade de exposição à luz solar (elevada ou diminuta) e temperatura ambiente. Apesar de não se registar nenhum efeito da temperatura ambiente, no peso à nascença, durante nenhum dos trimestres, bebés cujas mães tiveram uma intensa (elevada) exposição à luz solar, durante o 1º trimestre, nasceram significativamente mais pesados do que bebés cujas mães tiveram uma fraca (diminuta) exposição à luz solar, durante o mesmo período (1º trimestre). Para além destes dados verificou-se ainda que, bebés cujas mães em que a exposição à luz solar se registou nos níveis mais baixos, durante o 2º e 3º trimestres, nasceram significativamente mais pesados, do que bebés cujas mães em que a exposição à luz solar foi de nível mais elevado, durante o mesmo período (2º e 3º trimestre).
A conclusão expressa a hipótese de que elevados níveis de luz solar durante o ínicio da gestação podem aumentar o nível do factor de crescimento como insulina (IGF)-1, facilitando o crescimento pré-natal.

Fonte: Karen Tustin, Julien Gross, Harlene Hayne - Psychology Department, University of Otago, Dunedin, New Zealand
© 2004 Wiley Periodicals, Inc. Dev Psychobiol 45: 221-230, 2004

Traduzido e adaptado por Sónia Sousa

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Epidurais reduzem a dor mas podem aumentar o uso de fórceps

Public release date: 19-Oct-2005
Contact: Amy Molnar amolnar@wiley.com

The Cochrane Library newsletter,2005, Issue 4 – The best single source of reliable evidence about effects of health care

O alívio da dor é um assunto importante para mulheres em trabalho de parto, e as epidurais são cada vez mais frequentes.
Estas reduzem a dor mas aumentam a probabilidade de um parto instrumentalizado. Actualmente existe uma lacuna de evidências que comprovem que as epidurais aumentem o risco de ocorrência de cesarianas, no entanto, mulheres a quem seja administrada epidural têm um segundo estádio de trabalho de parto mais longo, comparado com aquelas que foram sujeitas a outras formas de alívio da dor.

As epidurais, introduzidas em 1946, são agora usadas por 1/5 das mulheres do Reino Unido e por metade das mulheres nos EUA, durante o trabalho de parto. Numa analgesia epidural, agentes anestésicos são injectados na região baixa da coluna. Este processo bloqueia a actividade nervosa e transmite estímulos indolores do canal de parto para o cérebro, o que resulta no alívio da dor.

Uma revisão sistemática da literatura incluindo 21 estudos de analgesia epidural no trabalho de parto, envolvendo 6664 mulheres. The Cochrane Reviews Authors tiraram várias conclusões a partir destes dados.

Comparativamente com mulheres que usaram outras formas de alívio da dor, mulheres sujeitas a epidural têm maior alívio da dor, segundo estádio de trabalho de parto mais longo, aumento da probabilidade de partos instrumentalizados, e aumento da probabilidade de ter febre durante o trabalho de parto.

Encontrou-se alguma falta de evidências que as epidurais afectassem os recém-nascidos, aumentassem a probabilidade de partos por cesariana, aumentassem a probabilidade de dores nas costas a longo termo, e afectassem a satisfação materna.

“As evidências nesta revisão têm que ser disponibilizadas a mulheres que considerem a hipótese de alívio da dor em trabalho de parto,” diz o autor principal Millicent Anim-Somuah, Investigador Honorário na School of Reproductive and Development Medicine, no Liverpool Women’s Hospital NHS Trust, Liverpool, Reino Unido.

Review title: Anim-Somuah M et al. Epidural versus non-epidural ornoanalgesia in labour.The Cochrane Database of Systematic Reviews 2005, Issue 4.

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Relação entre Amamentação e Alergias.

Actualização efectuada à pesquisa com o tema: Relação entre o Prolongamento da amamentação e redução das dermatites atópicas e asma – 30 de Agosto 2005.

Pesquisas na Alemanha sugerem que, quanto maior for o período de amamentação menor é o risco de alergias na primeira infância, sobretudo em crianças cujas mães não têm um histórico familiar. A mesma pesquisa propõe mecanismos que podem explicar esse efeito protector.

Foi medida a concentração do solúvel CD14 - que desempenha um papel importante na imunidade inata - no leite de 803 mães, durante 6 meses após o parto. A incidência de dermatites atópicas e asma foi registada durante os 2 anos seguintes.

Verificou-se que, a incidência mais baixa de dermatites em crianças ocorreu naquelas que foram amamentadas entre 6 a 9 meses e, cujas mães não apresentavam qualquer histórico de doenças atópicas. Também se observou uma associação inversa entre a duração do período de amamentação e o risco de asma (P=0.01) - ou seja, quanto maior o período de amamentação, menor o risco de vir a sofrer de asma.
O efeito protector da amamentação era sinergético (efeito resultante de) com concentrações do solúvel CD14 no leite materno.

Tothenbacher D et al (2005), Breastfeeding, soluble CD14 concentration in breast milk and risk of atopic dermatitis and asthma in early childhood: birth cohort study._Clin Exp Allergy_35:1014-21.

Esta é uma actualização da UNICEF UK Baby Friendly Iniciative.

Fonte: UNICEF UK Baby Friendly Iniciative http://www.unicefcomms.org.uk
Texto traduzido e adaptado por Sónia Sousa

terça-feira, 11 de outubro de 2005

Exercícios vs. dor no parto (pesquisa)

Segundo artigo divulgado pela Agência FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo), as mulheres que fazem exercício com regularidade estão mais preparadas para enfrentar as dores do parto. Os benefícios estendem-se também às sedentárias que praticam actividades físicas, de intensidade moderada, durante a gravidez, mais concretamente a hidroginástica.

A tese é da fisioterapeuta Erica Passos Baciuk, em doutoramento apresentado no Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Na literatura médica sempre existiu a dúvida quanto às vantagens de se iniciar uma atividade física no meio da gestação”, disse a pesquisadora à Agência FAPESP.

Para verificar a hipótese, Erica propôs que 78 mulheres que não praticavam exercícios há pelo menos oito meses se dividissem em dois grupos. Um deles passaria a frequentar aulas de hidroginástica três vezes por semana enquanto as mulheres do segundo grupo permaneceriam sem se exercitar.
Atendidas pelo serviço pré-natal do Hospital Universitário da Unicamp, as voluntárias deveriam estar grávidas de apenas um bebé e ter gestação de baixo risco. Todas elas passaram por avaliações físicas “ na 20ª semana de gestação, na 25ª e e na 35ª “ para que fossem testadas as suas capacidades cardiovasculares e as dos seus bebés.

De acordo com a pesquisadora, a prática de exercícios não interferiu no tipo de parto ou na duração dele e, sim, na capacidade de a mulher se sentir mais disposta no final da gestação, suportando melhor a dor das contracções até o nascimento do bebé.
“As mulheres que fizeram hidroginástica e tiveram parto normal solicitaram menos analgésicos do que aquelas que não se exercitaram”, conta a fisioterapeuta. Ela conseguiu acompanhar o nascimento dos bebés de 70 mulheres. Entre aquelas que deram à luz de parto normal, 27% das praticantes de ginástica pediram analgésico contra 65% das sedentárias.
De acordo com a pesquisadora, mesmo evoluindo para cesárea “ em casos onde houve riscos para mãe ou para o bebê “ o parto das mulheres que se exercitaram foi mais tranqüilo.

O trabalho de Erica Passos Baciuk fez parte de um estudo colectivo sobre gravidez e exercícios, desenvolvido no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism), da Unicamp, que engloba outras quatro pesquisas de mestrado e doutoramento. Os resultados serão apresentados durante o 26º Congresso Brasileiro de Fisioterapia, de 5 a 10 de outubro, em São Paulo.

Fonte: http://www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro.php?data%5bid_materia_boletim%5d=4423, por Karin Fusaro, em 03/10/2005 - adaptado por Sónia Sousa

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Entrevista com Sheila Kitzinger - A mulher que conseguiu pôr o nascimento na lista de prioridades dos políticos britânicos

Deixamos aqui o excerto de uma esclarecedora entrevista com Sheila Kitzinger.

QUEM É :
Professora de enfermeiras obstetras, Sheila Kitzinger , 75 anos, corre mundo a falar da experiência do parto. Filha de uma parteira – que criou uma das primeiras clínicas de planeamento familiar, no Reino Unido –, percebeu, quando entrou para a faculdade, em Oxford, que toda a antropologia social andava à volta de visões masculinas.

CONDECORAÇÕES :
Agraciada com a Ordem do Império Britânico, pelos seus serviços à educação sobre o parto.

LIVROS :
Mais de 20. Três – Mães, A Experiência do Parto e Um Estudo Antropológico da Maternidade – estão disponíveis em português.
Visão: O que fez para ser considerada a «mãe do parto», no Reino Unido?

SHEILA KITZINGER: No passado, o nascimento era considerado uma acto pessoal e biológico, tão antigo que não havia nada para dizer sobre ele. Eu fui a primeira pessoa a falar do parto como uma experiência. Não importa apenas se a mulher e o bebé estão vivos e de boa saúde, mas também como foi a experiência para a mãe. Isso tem implicações na forma como vai encarar a maternidade, a sua relação com o bebé e com o pai. Comecei a falar disto há 40 anos.
V.: Como é que o trabalho de uma parteira é mais seguro do que o de um obstetra?

S.K.:
As parteiras são especialistas em partos normais. Os obstetras, em partos anormais. Quando se trata o parto normal como se fosse anormal, acaba por se fazer dele anormal: intervém-se, administram-se drogas, estimula-se o útero para uma actividade artificial. E isso é perigoso.

V.: Que perigos têm essas intervenções médicas?

S.K.: Quando se estimula o útero de forma desnecessária, pode-se bloquear o fluxo sanguíneo na placenta, o que reduz o sangue oxigenado para o bebé. Além disso, as contracções são muito dolorosas e as mulheres não as conseguem controlar com relaxamento e respiração. Acabam por precisar de drogas contra a dor. Com essas drogas vêm outros efeitos secundários. É um ciclo. Uma intervenção leva a outra e acaba-se com um parto medicamente assistido.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

A melhor opção é a informação - Casas de Parto no Brasil

Donas do próprio parto

Elas pertencem às classes média e média alta, têm nível superior e plano de saúde. Mas, para terem os seus bebés, preferem recorrer a casas de parto do Sistema Único de Saúde, do que optar pela megaestrutura oferecida pelos hospitais privados. Ter a hipótese real de um parto humanizado, fugir de uma cesariana, acreditar que o nascimento é um acto fisiológico e não médico e desejar suporte emocional e não apenas tecnológico. Esses são alguns dos motivos enunciados por mulheres que, acima de tudo, alegam querer ser "donas" de seus próprios partos.
Todas têm em comum a intenção de evitar as sucessivas intervenções médicas que fazem parte das rotinas hospitalares e seus procedimentos - padrão - que vão desde a raspagem dos pêlos púbicos (tricotomia) ao corte e à sutura no períneo (episiotomia), passando por lavagens intestinais, rompimento induzido da bolsa de águas (amniotomia) e uso de ocitocina para acelerar o nascimento.
Hoje, há no país 14 casas de parto (ou Centros de Parto Normal, como são chamadas na portaria do Ministério da Saúde que as criou, em 1999). Todas fazem parte do sistema de saúde pública.
"A mulher está mais informada e percebeu que a melhor maneira de ter seu bebê é com o mínimo de intervenção. Como o serviço privado ainda não tem essa alternativa para oferecer, ela está migrando para a rede pública", observa o ginecologista, obstetra e pesquisador na área de saúde da mulher, Marcos Dias. "A sociedade começou a responder por estar se sentindo enganada. As gestantes combinam com seus médicos que querem o parto normal e, na última hora, escutam uma desculpa para a cesárea. Médicos não querem esperar, e casas de parto são feitas para isso", completa Francisco Vilella, homeopata, ginecologista e obstetra.

Três dias antes do nascimento de Raphael, a chefe Marina Campliglia, 30, ouviu da médica que a acompanhava "que o bebê era muito grande e havia uma incompatibilidade entre o tamanho da cabeça dele e o da pelve dela". "Estava na 41ª semana e sabia que seria provavelmente a minha última consulta. Saí chorando. Três dias depois, as contrações vieram. Virei para o meu marido e disse: "Vou para a casa de parto agora.'"
Marina não hesitou em percorrer, os 40 minutos correspondentes à distância entre a sua casa, em Moema, bairro nobre da zona sul de São Paulo, e a Casa de Parto de Sapopemba, na periferia da zona leste. "Desci do carro, e a bolsa estourou. Raphael nasceu comigo, com o pai e com a parteira. Sem anestesia, sem nada. Dez horas depois, peguei minhas coisas e voltei para casa, sem passar por mil médicos. Foi perfeito."
Grávida de sete meses, a escritora Micheliny Verunschk, 33, única mulher finalista na última edição do prémio literário Portugal Telecom, está dividida entre ter a filha Nina numa casa de parto ou em sua própria casa.
"Como leiga e mãe de primeira viagem, tinha certeza de que estaria mais segura se tivesse o bebê numa maternidade. Até que a médica me falou que se sentira "ofendida" por primas que optaram por partos na água e em casas de parto. Aquilo acendeu luzes de alerta em mim", lembra. Tomada pela dúvida, dedicou-se a pesquisar. "Fui ler, buscar informações na internet e conversar com outras mulheres. Comecei a notar que a cesárea continua a ser o procedimento médico mais cômodo."
A escritora, que ressalta que nunca seguiu "a linha natureba", diz ter começado a questionar os hospitais. "Descobri que [nos hospitais] procedimentos contra-indicados pela OMS para partos normais, como a tricotomia e a episiotomia, são rotina. Não quero parir em um hospital, a menos que seja necessário. Acho que meu lado "bicho" despertou."
A distância da sua casa até à casa de parto é o empecilho de peso. "Talvez por isso decida ter em casa. Veja bem, quantas vezes você ouviu falar de infecção domiciliar? Já de infecção hospital, eu ouvi inúmeras histórias."
Um estudo publicado pelo "British Medical Journal" acompanhou 5.418 nascimentos domiciliares monitorados por parteiras nos EUA. A conclusão foi que, para mães saudáveis, as chances de um parto seguro são as mesmas em um hospital ou em casa. Do total de grávidas acompanhadas, 87% pariram sem necessidade de intervenção médica. Só 3,4% das parturientes foram transferidas para hospitais; 4,7% utilizaram anestesia; 2,1% fizeram episiotomia, 1% precisou de fórceps. A pesquisa demonstra ainda que as percentagens de intervenção são mais baixas do que as de partos em hospitais.

POLÉMICA
Criadas há seis anos, as casas de parto tornaram-se o centro de um fogo cruzado entre as categorias de profissionais de saúde. Isso porque o texto da portaria que as oficializou permite que elas funcionem sem que seja obrigatória a supervisão de um médico, podendo ser geridas por enfermeiras-obstetras.
Referidas, como sendo "pouco seguras", por instituições como a Febrasa (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) enfrentam severas críticas. Criadas para atender gestantes de baixo risco, não contam com centros cirúrgicos.

"Esses lugares não oferecem segurança absoluta à gestante. Não posso concordar que o nascimento de uma criança não conte com a presença de um neonatologista ou que a mãe não tenha um anestesista para aliviar sua dor. É um retrocesso", avalia Luiz Camano, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e presidente da Comissão de Assistência ao Parto da Febrasgo.
Em 2004, quando foi inaugurada a casa de parto de Realengo, no Rio de Janeiro, o Conselho Regional de Medicina entrou com uma ação judicial para impedir o funcionamento da unidade.
"Até hoje vivemos numa briga sem fim com eles", comenta a enfermeira-obstetra Leila Gomes Ferreira de Azevedo, coordenadora da casa que, até a última quinta-feira, já tinha realizado 352 partos. "A média atual é de 36 por mês, mas queremos chegar a 80", afirma.
A casa de parto de Realengo atende moradoras do bairro e de algumas regiões do vizinho distrito de Bangu e oferece um serviço de pré-natal que inclui práticas desde a respiração a orientações de cuidados com o bebê. As mães que têm seus filhos ali ficam em quartos com cama de casal, com o bebê e o companheiro.
Tudo isso encantou a pedagoga Malila Barros Wrigg, 24, que, como morava na região assistida pela unidade, decidiu, já no quinto mês de gravidez, deixar para trás o obstetra que a acompanhava desde a adolescência e, com ele, todos os hospitais catalogados por seu plano de saúde, para dar à luz em Realengo.
"Quando disse que queria ter o bebê numa casa de parto, enfrentei muita resistência da minha família. Mas meu marido me apoiou, e me envolvi totalmente com as palestras e as oficinas do pré-natal. Em nenhum outro lugar aprenderia tanto quanto aprendi ali", enfatiza.
Porém, na primeira hora do dia 18 de Dezembro de 2004, a bolsa de Malila rompeu seguida de um grande sangramento. A hemorragia a tirou do protocolo de gestante de baixo risco. Tratava-se de um descolamento prematuro de placenta, e ela foi transferida para uma maternidade pública no bairro vizinho.
O parto de Clara, hoje com oito meses, teve uma série de complicações. Depois de uma cesariana de urgência, a criança nasceu com morte aparente. "Foi frustrante, mas, naquela situação, ouvindo o coração da minha filha quase parar, a possibilidade de cirurgia apareceu como uma solução", lembra Malila, que continua defendendo as casas de parto, desde que sejam anexas a hospitais.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, somando o volume de partos realizados nas casas de Belo Horizonte, Juiz de Fora e do Rio de Janeiro entre 2001 e 2004 chega-se a um total de 4.838. Houve seis óbitos neonatais. Nenhum óbito materno ocorreu. "A casa de parto é totalmente segura para as gestantes saudáveis", reforça o obstetra Marcos Dias. "O conceito de gravidez de baixo risco é ultrapassado. Uma gestante de baixo risco se converte numa parturiente de alto risco inesperadamente", rebate Luiz Camano.

ALTERNATIVA AO HOSPITAL
Enquanto as mães reivindicam o protagonismo dos partos, as doulas - versão moderna de parteira, conselheira e incentivadora do parto normal- actuam como coadjuvantes de peso. "A classe médica ficou desatualizada sobre como conduzir nascimentos. O parto, como a vida, tem riscos. Mas isso não justifica a hospitalização desnecessária", observa a doula Maria de Lourdes Teixeira, a Fadynha.
Entre as várias discussões possíveis, o facto é que as mulheres estão a reavaliar como devem parir as suas crianças. É o caso da arquitecta Carla Demattio, 34, que vive o processo de escolher onde vai ter o seu bebé e está a considerar a Casa de Parto de Sapopemba uma das suas opções. "Acho que seria uma saída para fugir das rotinas dos hospitais", explica.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq0610200504.htm
Onde encontrar
Belo Horizonte (MG)
Centro de Parto Normal do Hospital Sofia Feldman
Rua Antonio Bandeira, 1.060, Tupi
www.casasdeparto.com.br/casasdeparto/sofiafeldman.asp

Brasília (DF)
Casa de Parto de São Sebastião
Unidade Mista de Saúde, Centro de Múltiplas Atividades, conjunto 10, centro, São Sebastião

Fortaleza (CE)
Centro de Parto Normal do Hospital Distrital Gonzaga Mota de Messejana
av. Washington Soares, 7.700, Messejana
Itapecerica da Serra (SP)
Centro de Parto Normal do Hospital Geral de Itapecerica da Serra
Av. Guacy Fernandes Domingues, 200, Itapecerica da Serra

Juiz de Fora (MG)
Casa de Parto de Juiz de Fora
Rua Benjamin Constant, 790, centro
Rio de Janeiro (RJ)
Casa de Parto David Capistrano Filho
Av. Pontalina, s/n, Realengo
www.casadeparto.kit.net

São Paulo (SP)
Casa de Parto de Sapopemba
rua São José das Espinharas, 400, Sapopemba
Casa de Maria
rua Salvador Balbino Matos, 400-A, Itaim Paulista

Sites:
www.partonatural.com.br
www.amigasdoparto.com.br
www.partohumanizado.com.br
www.doulas.com.br
www.doulas.org.br
www.casasdeparto.com.br
www.maternidadeativa.com.br
www.partohumanizado.blogger.com.br
www.xoepisio.blogger.com.br
www.partoemcasa.weblogger.terra.com.br
www.birthdiaries.com/
www.maternitywise.org
www.socalbirth.org
www.waterbirth.org
www.homebirth.org.uk/
www.childbirth.org/
www.victoriousbirth.com/
www.unassistedchildbirth.com/
www.activebirthcenter.com/
www.gentlebirth.org/

Tire suas dúvidas
O que é uma casa de parto?
Os CPN (Centros de Parto Normal) foram criados pelo Ministério da Saúde em 1999 e são definidos na portaria 985 como "unidade de saúde que presta atendimento humanizado e de qualidade exclusivamente ao parto normal sem distócias"

Toda mulher pode ter seu bebê em uma casa de parto?
Não. Apenas aquelas cuja gravidez é de baixo risco, ou seja, sem nenhum problema e com tempo igual ou superior a 37 semanas. Algumas casas de parto -como a de Realengo, no Rio de Janeiro- restringem seu atendimento a moradoras da vizinhança

Quem não pode dar à luz numa casa de parto?
Gestantes hipertensas, diabéticas, cardiopatas ou que apresentam algum quadro patológico; grávidas que entram em trabalho de parto com tempo gestacional inferior a 37 semanas; grávidas de gêmeos; gestantes que já tiveram um parto cesárea

A casa de parto tem médicos?
Não necessariamente. De acordo com a portaria que os criou, os Centros de Parto Normal podem ser dirigidos por enfermeiras-obstetras. Alguns, como o de Brasília, têm médicos em seus quadros, mas não é obrigatório

Há equipamentos para socorrer o bebê?
Sim. Os centros dispõem de equipamentos para reanimação do bebê e monitoramento dos batimentos cardíacos e do líquido amniótico durante o trabalho de parto, além de incubadora móvel para o caso de a transferência da criança a um hospital

Como é o parto?
A mãe é estimulada a protagonizar o nascimento do bebê. Durante o trabalho de parto ela pode comer, ingerir líqüidos, andar, tomar um ducha ou ficar dentro d'água numa banheira, ficar de cócoras ou na posição que lhe for mais conveniente

O que a casa de parto não faz?
Parto cesárea, tricotomia (raspagem dos pêlos pubianos), lavagem intestinal, aplicação de anestesia, corte do períneo. O uso de ocitocina (substância que acelera o trabalho de parto) e a perfuração da bolsa podem ocorrer, mas não são rotina.

Pode dar errado?
Pode. Em caso de complicação durante o trabalho de parto, a mulher é transferida a um hospital público que atua em parceria com a casa de parto. Ela não pode escolher para qual hospital quer ser levada. Todos os centros têm ambulância.

Quando há transferência para um hospital?
Em casos de descolamento prematuro de placenta, sangramento, pressão alta da parturiente durante o trabalho de parto, presença de mecônio (fezes do feto) no líquido amniótico, bradicardia (diminuição dos batimentos cardíacos) ou sofrimento fetal.

Como é alojamento?
Em algumas casas de parto, é conjunto -as mães ficam juntas em quartos coletivos. Em outras, como a do Rio de Janeiro, a mãe fica em quarto com cama de casal junto com o bebê e o acompanhante. Os bebês sempre ficam na companhia da mãe.
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Fontes: casas de parto, mães, médicos e enfermeiros

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq0610200506.htm

De TATIANA DINIZ - DA REPORTAGEM LOCAL, em Folha SP (06.10.05) - adaptado por Sónia Sousa

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Cesariana Eleva Risco de Cárie em Bebés


29 de agosto, 2005 - 12h58 GMT (09h58 Brasília)

Cesariana eleva risco de cárie em bebés, diz pesquisa

Crianças que nascem por meio de cesariana correm mais risco de ter cáries no futuro, segundo cientistas americanos.

Uma pesquisa feita na Universidade de Nova York analisou os históricos de 156 bebés e concluiu que os que nasceram por cesariana foram infectados com uma bactéria que causa cáries um ano antes que os que vieram ao mundo por parto normal.
Isso porque eles estavam mais expostos a bactérias durante o parto, afirmam os cientistas.
Em artigo publicado na revista académica Journal of Dental Research, os autores do estudo admitem, porém, que factores sociais também influenciam a proporção da incidência de cáries nos dois grupos.

Streptococcus mutans
Em média, os 29 bebés do grupo analisado que haviam nascido por cesariana mostraram os primeiros sinais de presença da bactéria streptococcus mutans 17 meses depois de verem a luz.
Entre os 127 que nasceram por parto normal, as bactérias começaram a se manifestar 29 meses após o parto.
A streptococcus mutans cresce na superfície dos dentes e logo acima da linha da gengiva, onde trabalha na transformação de alimentos em ácidos.
Ela é transmitida aos bebés principalmente pelas mães, por causa do contacto íntimo que possuem.
Estudos anteriores haviam estabelecido que, quanto antes se desenvolve a bactéria, é maior a incidência de cáries nas crianças.

Resistência

“Crianças que nascem pela vagina oferecem um ambiente menos hospitaleiro às bactérias orais”, disse o chefe dos cientistas, Yihong Li.
“Elas desenvolvem mais resistência a estas bactérias no primeiro ano de vida, em parte por causa da exposição a uma maior variedade e intensidade de bactérias de suas mães no ambiente que cerca o nascimento.”
“As crianças que nascem em cesarianas expõem-se menos a bactérias ao nascer, e por isso desenvolvem menos resistência.”
Por outro lado, ele admitiu que as mães que deram à luz por cesariana e fizeram parte do estudo tinham uma incidência maior de cáries, maior histórico de doenças venéreas e rendimentos mais baixa, o que pode ter contribuído para os resultados da pesquisa.
Artigo retirado de BBCBrasil.com

sexta-feira, 30 de setembro de 2005

Um ano cheio!

O blog Doulas de Portugal faz hoje um ano!
Há um ano atrás éramos duas mulheres com um grande sonho. Regressadas de Londres, com as palavras de apoio de Liliana Lammers e Michel Odent, queríamos plantar uma semente de mudança num país.Foi com este blog que começámos a passar a palavra. Ao longo deste ano démos a conhecer o papel da doula na humanização do parto, divulgámos evidências científicas sobre cuidados perinatais e partilhámos o nosso grande amor pela causa da dignificação do parto e nascimento em Portugal. Surgiram os convites para entrevistas e conferências, as doulas surgiram na imprensa e na televisão portuguesa. Conhecemos outras pessoas que também já tinham escrita esta missão nos seus corações. Hoje somos muitas mais, criámos uma Associação sem fins lucrativos, organizámos acções de formação, existem doulas a prestar apoio às famílias um pouco por todo o país. Mães de todos os lados agradecem a dedicação e apoio das doulas e reconhecem a importância do seu acompanhamento. Nasceu um movimento humano que não pode mais ser parado.
A todos quantos se têm juntado a nós, e também aos que nos têm dado a oportunidade de divulgar o nosso trabalho, o nosso muito obrigado.A semente germinou, o sonho é agora um projecto de trabalho bem real, com mudanças já visiveis a cada bebé que nasce de uma forma mais saudável, mais pacífica e com ele nasce uma mãe mais forte, segura e feliz.
Juntos temos uma enorme missão pela frente.
Que seja reconhecida a importância e profundo significado do parto e que a mulher seja respeitada como sua verdadeira protagonista. Que melhore a forma como nos tratamos uns aos outros no precioso momento do ínicio da vida. Pois é aí que nasce a esperança de um mundo melhor.

Como disse Michel Odent: "Para mudar o mundo é preciso primeiro mudar a forma de nascer".

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

Amamentação versus Obesidade

Actualização efectuada à Pesquisa com o tema: Duração do Período de Amamentação versus redução do risco de obesidade.

Um estudo entre 2087 crianças australianas concluiu que, os bebés amamentados durante pelo menos 1 ano eram mais magros, do que aqueles que eram desmamados mais cedo.
Observou-se ainda que os bebés que não tinham sido amamentados de todo eram os que apresentavam maior tendência para a obesidade. (1)

Uma meta-analise dos estudos existentes com as variáveis, duração do período de amamentação e o risco de obesidade, demonstra fortemente a associação entre um longo período de amamentação e a consequente diminuição do risco/probabilidade da criança vir a ser desenvolver obesidade.(2)

Dezassete estudos incluídos apresentavam conclusões demonstrativas de ratios de probabilidades e intervalos de confiança de cerca de 95%, na associação entre a amamentação e a duração do período de amamentação.

A duração da amamentação estava inversamente associada ao risco de obesidade, isto é, quanto maior o período de amamentação menor seria o risco da criança ser obesa. (coeficiente de regressão = 0.94, 95% intervalo de confiança: 0.89, 0.98).

Análises categóricas confirmaram o seguinte nível de associação :

- < de 1 mês de amamentação: ratio de probabilidades = 1.0, 95%
intervalo de confiança: 0.65, 1.55;

- 1-3 meses de amamentação: ratio de prob. = 0.81, 95%
intervalo de confiança. = 0.74, 0.88;

- 4-6 meses de amamentação: ratio de probabilidades = 0.76, 95%
intervalo de confiança = 0.67, 0.86;

- 7-9 meses de amamentação: ratio de probabilidades = 0.67, 95%
intervalo de confiança = 0.55, 0.82;

- > de 9 meses de amamentação: ratio de probabilidades = 0.68, 95%
intervalo de confiança = 0.50, 0.91.

Notas do texto:

(1) Burke V et al (2005). Breastfeeding and Overweight: Longitudinal Analysis in na Australian Birth Cohort. J Ped 147: 56-61

(2) Harder T et al (2005). Duration of breastfeeding and Risk of Overweight: A Meta-Analysis. Am. J Epidemiol, available online in advance of publication.


Esta é uma actualização da UNICEF UK Baby Friendly Iniciative.

Fonte
UNICEF UK Baby Friendly Iniciative http://www.unicefcomms.org.uk
Texto traduzido e adaptado por Sónia Sousa

domingo, 18 de setembro de 2005

Ovários Congelados Poderiam Ajudar no Combate à Infertilidade

da EFE, em Londres

Uma nova técnica de congelamento e transplante de ovários completos poderia ser utilizada, dentro de poucos anos, em mulheres que enfrentarem tratamentos que possam deixá-las estéreis, publica nesta quinta-feira a revista "Human Reproduction".
Segundo esta publicação britânica, uma equipa israelita conseguiu produzir embriões a partir de ovários implantados em oito ovelhas, que tinham sido congelados previamente.
Ainda que esta técnica já tenha sido eficaz com tecido do órgão, a vantagem de extrair o ovário inteiro é que, desta maneira, os vasos sanguíneos são conservados. Da outra forma, era necessário fazê-los crescer artificialmente.
Os pesquisadores extraíram o ovário direito de oito ovelhas e congelaram-nos para reimplantá-lo duas semanas mais tarde. Cinco dos oito transplantes foram satisfatórios: o fluxo sanguíneo foi retomado rapidamente.Dois dos ovários produziram um óvulo cada um, enquanto o outro, que foi estimulado artificialmente, produziu quatro. Os seis óvulos obtidos foram então estimulados com produtos químicos e conseguiram desenvolver embriões sem fertilização, um processo chamado partenogênese.
Dois anos mais tarde, uma ressonância magnética em uma das ovelhas demonstrou que o ovário transplantado continuava a funcionar normalmente.
Amir Arav, chefe do projeto, disse à "Human Reproduction" que "isso poderia revolucionar o campo da crioconservação [preservação mediante congelamento] para diversas aplicações em humanos, como o transplante de órgãos ou para ajudar mulheres que enfrentam a perda de sua fertilidade".
Actualmente, o transplante de órgãos vitais - como rim, fígado, coração ou pulmão - deve ser realizada poucas horas após a doação. A nova técnica poderia ser utilizada também para a conservação de espécies animais em perigo. A mesma equipa congelou recentemente o ovário de uma gazela que corre o risco de extinção para que ele seja transplantado em outro animal da mesma espécie no futuro.

quinta-feira, 15 de setembro de 2005

Risco Acrescido de Alergia ao Leite de Vaca em Sequência de Cesariana



por Will Boggs, Médico
Nova Iorque (Reuthers Health).
13 de Setembro de 2005

Crianças nascidas de cesariana têm um risco duplamente acrescido de ter alergia ou intolerância ao leite de vaca quando comparadas com outras crianças, segundo uma reportagem na edição de Setembro da revista „Allergy“.
„Se as descobertas se confirmarem e o mecanismo subjacente se mostrar aliado a uma flora microbiana intestinal alterada, isto abrirá possibilidades muito interessantes no tratamento futuro a doenças alérgicas.“, disse à agência Reuthers Health o Dr. Merete Eggesboe do Instituto Norueguês de Saúde Pública, em Oslo.
O Dr. Eggesboe e seus colegas, que já anteriormente anunciaram uma associação semelhante entre a cesariana e as alergias ao ovo, ao peixe e aos frutos secos, investigaram a possibilidade de uma ligação entre a cesariana e a alergia/intolerância do leite de vaca em 2656 participantes no Oslo Birth Cohort. Embora por parte dos pais não houvesse ligação entre o tipo de parto e as reacções da criança ao leite, os autores demonstram que a alergia/intolerância ao leite é duas vezes superior entre crianças que nasceram por cesariana do que entre aquelas que nasceram por parto vaginal.
Nenhuma das crianças diagnosticada inicialmente com alergia/intolerância ao leite mas que ficara tolerante aos 2 anos e meio de idade, tinha nascido por cesariana, notam os investigadores, sugerindo assim uma associação negativa entre tornar-se tolerante e a cesariana.
„Os resultados deste estudo não se podem explicar pelas diferenças entre crianças com ou sem pré-disposição, vindo, desta maneira, reforçar a teoria de que uma colonização intestinal inicial tem um papel na etiologia das alergias alimentares.“, concluiram os investigadores.
„Nós iniciámos uma investigação sobre a microflora intestinal nas crianças, relacionando-a com o tipo de parto e com o aparecimento de doenças alérgicas.“, diz o Dr Eggesboe. „O nosso objectivo é estudar se alguma das alterações observadas na flora intestinal associada ao tipo de parto, está também associada ao desenvolvimento de doenças alérgicas.“
Allergy 2005;60:1172-1173.
A ADP agradece à Doula Ana Raposeira, a disponibilidade para a tradução deste interessante artigo.

sábado, 3 de setembro de 2005

PREPARAÇÃO PARA O NASCIMENTO DE UMA MÃE


com Catarina Castro

De 17 de Setembro até 22 de Outubro 2005

De uma forma assumidamente informal vamos falar de gravidez, parto e pós-parto essencialmente na perspectiva da mulher/mãe. Vamos sobretudo tentar encontrar a nossa própria intuição e olhar para o parto como uma fase cheia de simbolismo na vida de cada mulher. Vai ser partilhada alguma informação actualizada que permita aprofundar a auto-responsabilização da futura mãe. Vamos partilhar algumas dicas para o trabalho de parto, a amamentação e o baby blues. Estão previstos relatos de parto na primeira pessoa, actividades artísticas e jogos.

Para:Grávidas de mais de 6 meses (pela primeira vez ou não)
Mas também:Grávidas em geral (pela primeira vez ou não). Mulheres que querem ser mães.

Estrutura:6 sessões de 2 horas cada. Aos sábados das 10.30 às 12.30h
Preço: €60 / 6 sessões

Catarina Castro – Mãe de uma filha e um filho; Doula; Voluntária da linha SOS Amamentação.

Informações e inscrições: 969 127 516

Integrado no programa de Seminários para 2005 do Instituto Macrobiótico de Portugal.

Mais informações em:
http://www.e-macrobiotica.com/novevent/seminarios.htm

quinta-feira, 25 de agosto de 2005

Que valores escolhemos nesse ritual?

A irracionalidade das práticas da assistência ao parto - a contradição entre o que prescreve a ciência e como as práticas se organizam - tem intrigado muitos estudiosos do tema há várias décadas. Para iluminar esse enigma, além dos movimentos sociais organizados e daqueles que lidam com a medicina perinatal, surge a contribuição de antropólogas que vieram a compor o que hoje se conhece como a 'Antropologia do Parto' (…).
Entre os trabalhos mais provocativos (…) está o da antropóloga cultural Robbie Davis-Floyd, e em especial o seu livro Birth as an American Rite of Passage (1992).

A partir de mais de cem entrevistas com mulheres de classe média e profissionais de saúde nos Estados Unidos, a autora explora as experiências pessoais desses personagens em relação ao parto e sua formatação cultural. Ela parte do reconhecimento de que todas as sociedades humanas canalizam o processo de nascer para ritos de passagem, que têm a marca dos valores que essa sociedade partilha. Uma das contribuições mais inovadoras do texto é demonstrar que, diferentemente do que costumamos pensar, a transferência do local de parto da casa para o hospital não representou uma des-ritualização daquilo que em outras sociedades ditas primitivas foi sempre um processo carregado por superstições e tabus. Pelo contrário, a transferência do parto para o hospital "resultou na mais elaborada proliferação de rituais em torno deste evento fisiológico já vista no mundo cultural humano".

Ela descreve um ritual como a encenação (…) padronizada, repetitiva, simbólica e transformativa de uma crença ou valor cultural, cujo principal objectivo seria o alinhamento do sistema de crenças do indivíduo com o da sociedade. Um rito de passagem consistiria numa série de rituais através dos quais as pessoas são transportadas de um status social para outro, desse modo transformando tanto a maneira como a sociedade o define quanto como o indivíduo define a ele mesmo. Esse processo transformativo exigiria experiências fora do comum, incluindo dificuldades e desafios físicos e mentais, cujo enfrentamento facilitaria a ruptura com o estado anterior e a abertura psicológica dos iniciados nos novos papéis.

A partir dessa perspectiva, Davis-Floyd analisa as maneiras pela quais os sistemas de valores e crenças norte-americanos (especialmente o lugar da ciência e da tecnologia, e das instituições que as disseminam e controlam) se expressam e se perpetuam nos rituais em torno do parto hospitalar. Ela busca dissecar, nesses rituais que chamamos 'procedimentos da assistência', seu simbolismo, sua matriz cognitiva, o padrão repetitivo, a desestruturação e estabilização cognitiva, o senso de inevitabilidade, o carácter dramático e sua intensificação, o compromisso com o status quo, e mesmo suas contradições e paradoxos.

No capítulo sobre as mensagens do parto, a autora convida-nos a uma análise simbólica de cada uma das rotinas padronizadas na assistência norte-americana. Quase nada escapa ao seu olhar provocador que chama o leitor ao estranhamento diante das condutas, analisadas quanto a sua descrição oficial e justificativa, aos efeitos fisiológicos, às respostas das mulheres e aos seus objetivos rituais. Assim ela percorre as rotinas: o uso da cadeira de rodas para a admissão da parturiente, a separação da família, a troca das roupas pelas batas abertas do hospital, a lavagem retal, a permanência no leito e a limitação de movimentos, a privação de comida e de água, o uso de soro na veia, o uso de ocitocina para aumentar as contrações, o rígido controle de tempos e movimentos, os usos da analgesia e anestesia, a ruptura das membranas, o monitoramento fetal interno e externo, os toques vaginais, as orientações de quando fazer ou não fazer força, a transferência do pré-parto para a sala de parto, a posição deitada, com as pernas para cima e imobilizadas, o uso de panos cirúrgicos estéreis, de mãos atadas, de máscaras e de desinfetantes; e por fim a episiotomia (corte da vulva e vagina) - e ainda os procedimentos do pós-parto e da assistência ao bebê.

É importante lembrar que o livro, publicado há dez anos, já se remete ao questionamento interno à própria medicina sobre a extrema variabilidade geográfica do que seria a "assistência adequada" e sobre quais seriam as bases científicas das rotinas utilizadas. A partir da segunda metade da década de 1980, muitos grupos de profissionais passam a se organizar para sistematizar os estudos de eficácia e segurança na assistência à gravidez, ao parto e ao pós-parto, iniciando um esforço que se estendeu mundialmente, apoiado pela Organização Mundial da Saúde e que revolucionou o que hoje chamamos de assistência adequada.

A avaliação científica das práticas na década de 1990 vem postulando a efectividade e a segurança de uma atenção ao parto com um mínimo de, ou nenhuma, intervenção sobre a fisiologia e a adopção de muitos procedimentos centrados nas necessidades das parturientes - ao invés de organizados em função das necessidades das instituições e profissionais. Trata-se de uma mudança de paradigma que redimensiona totalmente a sentido da assistência. Entender os componentes dessa assistência em sua dimensão simbólica, como rituais, se torna ainda mais relevante hoje do que era há uma década.

Para nós, profissionais de saúde, um dos obstáculos à compreensão dessas dimensões rituais e simbólicas do parto está justamente na nossa dificuldade de transpor a crença 'religiosa' que temos na racionalidade da técnica. Como escreve Davis-Floyd, à medida que cresce e se acumula a evidência de que os procedimentos médicos habituais na assistência ao parto são muitas vezes desnecessários e mesmo danosos, "muitos indivíduos envolvidos com o tema se perguntam como uma prática que se propõe tão científica pode ser tão irracional". Ou como nos informa uma médica brasileira, conhecedora das pesquisas sobre essas evidências: "Racionalmente, eu sei que não é pra fazer a episiotomia. Mas a minha mão vai sozinha". Nós nos perguntamos: se sabemos que as rotinas não são inocentes, por que é tão penoso mudar?

Para a autora, os procedimentos obstétricos tenderiam a permanecer, independentemente de sua efectividade, de sua segurança ou do sofrimento que provocam, por serem "respostas rituais racionais para o medo extremo, em nossa sociedade tecnocrática, dos processos naturais dos quais esta sociedade depende para continuar sua existência"

Sobre a episiotomia e sua permanência, por exemplo, mostra, através dos depoimentos de usuárias e provedores, em que medida "os médicos, como representantes da sociedade, podem desconstruir a vagina (e por extensão, suas representações), para então reconstruí-la de acordo com nossas crenças culturais e sistema de valores". A mensagem é que as mulheres não são capazes de dar à luz as crianças sem a tecnologia, que resgataria mãe e filho dos riscos e seqüelas do parto.

Nesse trabalho, a exploração dos vínculos entre a 'sexualidade' e a 'reprodução' aparece como uma tarefa fundamental, compreendendo o parto como uma função sexual normal das mulheres (…). Para Davis-Floyd, um dos mais importantes dilemas da assistência – é a sua crença na superioridade da tecnologia sobre o corpo - é remover a sexualidade do processo de parir, pois tudo na cena do parto é referido à sexualidade suas secreções e gemidos, sua corporalidade, a gestação como resultado de uma relação sexual e mesmo os genitais expostos e manipulados. "Hoje, a sexualidade se mantém como uma potente ameaça conceitual aos poderes criativos da tecnologia, e a sexualidade feminina se mantém como a principal lembrança dessa ameaça".

Ainda hoje persiste, apesar das evidências de ser na maioria das vezes muito dolorosa além de arriscada, a rotina da administração de ocitócitos para acelerar o parto, através do 'vínculo umbilical' do soro intravenoso, prendendo a mulher à instituição e a 'nutrindo' com o medicamento. Essa permanência teria também como finalidade comunicar à mulher a superioridade do nosso conceito cultural de tempo como linear, mensurável e associado à produtividade, e o tempo profissional como mercadoria valiosa - enfim, a superioridade das necessidades da instituição sobre as da mulher. Comunica também que o corpo da mulher deveria funcionar como uma máquina e, se não está produzindo sozinho as reações consideradas adequadas à produtividade institucional (contrações, dilatação), esse corpo é uma máquina defeituosa, cujo ritmo deve ser corrigido, e submetido ao das instituições e profissionais. O aumento (e eventual insuportabilidade) da dor resultante da ocitocina "serviria aos objectivos rituais de enevoar, atordoar - isso é, de acelerar a ruptura do iniciado com seu sistema prévio de valores, através da intensificação da tensão física".
O livro de Davis-Floyd traz-nos questões fundamentais para o diálogo com os profissionais de saúde, tais como: qual o nosso lugar como profissionais e cuidadores, educados para a intervenção e nela reconhecendo nossa identidade profissional? Qual o nosso papel diante dos questionamentos da eficácia e da segurança de nossas rotinas - para além do nosso papel como oficiantes desses rituais?

Se [nós médicos] fomos socializados (…) num "tipo de cinismo e arrogância intelectual" resultante da separação entre o conhecimento e percepção do sofrimento, valores esses que devemos absorver na nossa formação antes mesmo de ter contacto com os pacientes - como nos portamos diante das 'novas' pacientes, que falam e se movem, querem interacção, e mesmo esperam algum envolvimento emocional, alguma compaixão?

Para nós do campo da Saúde Coletiva, (…) o livro põe-nos diante da responsabilidade de tentar distinguir o que seria o carácter ritual da assistência e as condutas de fato seguras e efectivas - e mesmo a necessidade da convivência incómoda com a falta de certezas. Recoloca o debate acerca da maternidade segura: não há a priori nenhuma incompatibilidade, mas os serviços que associem segurança, efectividade e respeito aos direitos (mais ou menos o que temos chamado por aqui de 'humanizados') ainda estão em construção.

Para o movimento de mulheres, o trabalho de Davis-Floyd aponta para a necessidade de devolver ao parto e à reprodução sua dimensão erótica. E também, já que se trata de rituais, de pensar ritos mais ricos, mais significativos, mais satisfatórios, mais inclusivos, a partir da nossa diversidade como mulheres. Sim, nos coloca novas responsabilidades, uma vez que costumamos pensar o parto como mais uma ocasião de passividade e de entrega do corpo para o Outro. Quem queremos que presencie, ou que oficie esses ritos, como, onde, por quê? Enfim, a principal provocação parece ser: nesse momento de passagem, que valores queremos partilhar e transmitir?

Artigo de Simone Grilo Dinis, médica brasileira, publicado na Revista Estudos Femininos, 2005, adaptado por Carla Guiomar
versão original em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2002000200023&lng=en&nrm=iso

sábado, 13 de agosto de 2005

Parabéns à Cristina Torres

Muitos parabéns (muito atrasados) à Cristina e ao Américo pelo belíssimo parto domiciliar do seu filho Joseph no passado dia 28 de Julho.
Um parto tranquilo e feliz, acompanhado pela doula Margarida e pela parteira Dª Glória.
Podem ler o belíssimo relato de parto aqui: http://www.humpar.org/nascimetojosephbenjamin.htm
Um abraço apertado de felicidades que bem merecem! A todos!

quarta-feira, 3 de agosto de 2005

Errata no livro "Gravidez e Parto-As Melhores Provas"

Foi detectado um erro no referido livro, "Gravidez e Parto-As Melhores Provas", erro grave que urge ser esclarecido.
Em várias páginas, principalmente no capítulo 26, que se inicia na página 287, podemos ver, a começar pelo título, que há uma equivalência entre os termos "ruptura da bolsa de água" e "ruptura da placenta", estes dois termos não são, de todo equivalentes.
Ruptura da placenta, tão pouco existe, existe sim, placenta abrupta e placenta prévia.
Bolsa de água contém o líquido amniótico, e essa sim, rompe deixando sair o seu conteúdo pela vagina no início, durante o trabalho de parto, ou no parto.

Devemos pois ler "ruptura da bolsa de água" onde lemos "ruptura da placenta".

Associação Doulas de Portugal

quinta-feira, 21 de julho de 2005

Como Saber se um Profissional de Saúde Não é a favor da Amamentação

Como reconhecer um profissional de saúde que não apoia a amamentação

Todos os profissionais de saúde dizem apoiar a amamentação. Mas muitos apenas apoiam enquanto corre bem, e outros nem isso. Mal surge algum problema com a amamentação — ou em qualquer outro aspecto da vida da nova mãe —, muitos aconselham o desmame ou a utilização de suplementos. Apresentamos a seguir uma lista parcial de pistas que podem ajudá-la a descobrir se um profissional de saúde apoia a amamentação, pelo menos o suficiente para, no caso de ocorrer algum problema, se esforçar por ajudá-la a continuar a amamentar.

Um profissional de saúde que não apoia a amamentação:

1. Oferece-lhe amostras ou publicidade de leite artificial. Estas amostras e publicidade induzem à utilização do produto e a sua distribuição chama-se marketing. Não existem provas de que uma determinada marca de leite seja melhor ou pior que outra para um bebé normal. A literatura, os CD’s ou vídeos que acompanham as amostras são modos de subtilmente (e não tão subtilmente) minar a amamentação e louvar o leite artificial. Se não acredita, pergunte a si mesma porque é que as marcas de leite artificial andam a utilizar tácticas agressivas para que o seu médico ou hospital lhe ofereça a literatura e as amostras deles e não as de outras marcas? Não deveria também perguntar a si mesma porque é que o profissional de saúde não publicita a amamentação?

2. Diz-lhe que a amamentação e o biberão são essencialmente a mesma coisa. A maior parte dos bebés alimentados a biberão crescem saudáveis e seguros e nem todos os bebés amamentados crescem saudáveis e seguros. Mas isto não significa que a amamentação e o biberão sejam essencialmente o mesmo. O leite artificial é uma versão rudimentar daquilo que se conhecia sobre o leite materno vários anos atrás, e esse conhecimento por sua vez é uma aproximação também rudimentar a qualquer coisa que não cessa de nos surpreender e de que só agora começamos a ter alguma ideia. Por exemplo, sabemos há muito que o ADH e o ARA são importantes para o desenvolvimento do cérebro do bebé, mas foram precisos anos para se conseguir adicioná-los ao leite artificial, sem que isso signifique que tenham o mesmo papel, pois a absorção a partir do leite artificial é diferente da absorção a partir do leite materno. As várias diferenças têm importantes consequências para a saúde. Muitos elementos do leite materno não se encontram no leite artificial, embora saibamos há muitos anos da sua importância para o bebé — por exemplo, anticorpos e células que protegem o bebé contra infecções, factores de crescimento que ajudam o sistema imunitário, o cérebro e outros órgãos a desenvolver-se. Amamentar não é o mesmo que alimentar a biberão, estabelece uma relação completamente diferente entre a mãe e o bebé. Pode-se ter tido a infelicidade de não conseguir amamentar (embora na maioria dos casos os problemas possam ser evitados), mas dar a entender que isso não tem importância é condescendência e um erro crasso. Um bebé não precisa de ser amamentado para crescer feliz, saudável e seguro, mas ajuda muito.

3. Diz-lhe que o leite da marca x é melhor. Normalmente isto significa que está a ser influenciado pelo representante dessa marca. Pode significar que os seus próprios filhos toleraram melhor essa marca do que outras. Significa que tem ideias preconcebidas e infundadas.

4. Diz-lhe que não é necessário amamentar o bebé logo após o nascimento, pois a mãe está ou estará cansada e, de qualquer modo, muitas vezes o bebé não está interessado. Não é necessário, mas frequentemente é muito útil (consulte os folhetos #1 Breastfeeding—Starting Out Right [Amamentação-Começar Bem]e #1b The Importance of Skin to Skin Contact [A Importância do Contacto da Pele com Pele]). Os bebés podem mamar enquanto a mãe estiver deitada ou a dormir, embora a maioria das mães não queira dormir num momento como este. Os bebés nem sempre mostram interesse em alimentar-se de imediato, mas isso não é razão para os impedir de ter essa oportunidade. Muitos bebés começam a mamar nas duas primeiras horas após o parto e essa é a altura mais favorável para um bom começo, mas não o poderão fazer se forem separados da mãe. Se tiver a impressão de que a pesagem do bebé, as gotas oculares e a injecção de vitamina K têm prioridade sobre o estabelecimento da amamentação, pode duvidar do empenhamento de alguém em relação à amamentação.

5. Diz-lhe que a confusão entre tetina e mamilo é coisa que não existe e que deve começar cedo a dar biberão ao bebé para garantir que ele aceita bem a tetina. Porque deverá começar a dar biberão cedo se afinal não existe confusão entre tetina e mamilo? Argumentar que não há provas da existência dessa confusão é colocar o carro à frente dos bois. Será preciso provar, isso sim, que são inofensivas as tetinas, que nenhum mamífero utilizou antes do homem, e que mesmo este só começou a utilizar mais correntemente no final do século XIX. Mas não está provado que a tetina seja inofensiva para a amamentação. O profissional de saúde que parte do princípio de que a tetina é inofensiva está a olhar para o mundo como se a alimentação a biberão, e não a amamentação, fosse o método fisiologicamente normal de alimentar bebés. Convém acrescentar que o facto de nem todos os bebés que utilizam tetinas - ou até talvez nem sequer muitos - terem problemas com a amamentação não significa que a utilização precoce de tetinas não provoque problemas a alguns bebés. Muitas vezes é uma combinação de factores, um dos quais pode ser a utilização de uma tetina, que dá mau resultado.

6. Diz-lhe que tem de parar de amamentar porque você ou o bebé está doente, ou porque você vai tomar medicamentos ou vai realizar um exame médico. Existem situações ocasionais, raras, em que a amamentação não pode continuar, mas muitas vezes os profissionais de saúde assumem simplesmente que a mãe não pode continuar a amamentar e estão muitíssimas vezes errados. O profissional de saúde que apoia a amamentação fará todos os esforços para descobrir como evitar a interrupção da amamentação (a informação nas páginas brancas do Compendium of Pharmaceutical Specialties azul e o PDR não são boas referências – segundo estes, todas as drogas são contra-indicadas, pois a indústria farmacêutica está mais interessada em livrar-se de responsabilidades do que em proteger os interesses das mães e dos bebés). Quando uma mãe precisa de tomar um medicamento, o profissional de saúde tentará usar medicamentos que não impeçam a mãe de amamentar. (Na realidade, muito poucos medicamentos requerem que a mãe pare de amamentar). É extremamente invulgar haver apenas um medicamento que possa ser usado para um determinado problema. Se a primeira escolha do profissional de saúde for um medicamento que exija que a amamentação seja interrompida, tem o direito de pôr em questão se ele ou ela realmente pensou na importância da amamentação.

7. Fica surpreendido por saber que o seu bebé de seis meses ainda mama. Muitos profissionais de saúde acreditam que os bebés devem continuar com leite artificial durante pelo menos nove meses e até mesmo doze meses (e, agora que as empresas de leite artificial vendem leite para crianças até aos dezoito meses e mesmo até aos três anos, em breve alguns profissionais de saúde estarão a aconselhar as mães a usar leite artificial durante três anos), mas ao mesmo tempo parecem acreditar que o leite materno e a amamentação não são necessários, podendo mesmo ser prejudiciais se continuados por mais de seis meses. Porque será a imitação melhor que o original? Não deverá perguntar a si mesma o que implica esta linha de pensamento? Em muitas partes do mundo, a amamentação até aos dois ou três anos de idade é comum e normal, embora, graças ao bom marketing do leite artificial, isso seja cada vez menos comum.


8. Diz-lhe que o leite materno não possui valor nutritivo após o bebé ter seis meses ou mais. Mesmo que isto fosse verdade, a amamentação continuava a ter valor. A amamentação é uma interacção única entre duas pessoas apaixonadas, mesmo sem o leite. Mas aquilo não é verdade. O leite materno continua a ser leite, com gordura, proteínas, calorias, vitaminas e tudo o resto, e os anticorpos e outros elementos que protegem o bebé das infecções continuam presentes, alguns em maiores quantidades do que quando o bebé era mais novo. Quem lhe disser aquilo, não sabe nada sobre amamentação.

9. Diz-lhe que nunca deve permitir que o bebé adormeça enquanto mama. Porque não? Não há problema se um bebé também conseguir adormecer sem mamar, mas uma das vantagens da amamentação é oferecer-lhe um modo prático de o adormecer quando ele está cansado. É exactamente o que têm feito as mães de todo o mundo desde o início da era dos mamíferos. Um dos maiores prazeres da maternidade é adormecer uma criança nos braços, sentindo o calor que liberta à medida que o sono a vence. Um dos prazeres da amamentação, quer para a mãe quer provavelmente para o bebé, é ele adormecer ao peito.

10. Diz-lhe que não deve ficar no hospital para amamentar o bebé doente pois é importante que fique a descansar em casa. É importante que descanse e o hospital que apoie a amamentação fará com que possa descansar enquanto estiver no hospital para amamentar o bebé. Os bebés doentes não precisam menos de ser amamentados que um bebé saudável, precisam mais.

11. Não tenta ajudá-la caso esteja a ter problemas com a amamentação. Muitos problemas podem ser evitados ou tratados e a maior parte das vezes a resposta aos problemas da amamentação é não utilizar o leite artificial. Infelizmente, muitos profissionais de saúde, particularmente os médicos e ainda mais os pediatras, não sabem como ajudar. Mas existe ajuda. Insista em obtê-la. “Não precisa de amamentar para ser uma boa mãe” é verdade, mas não é resposta a um problema de amamentação.


Dúvidas? (416) 813-5757 (opção 3) ou drjacknewman@sympatico.ca ou o meu livro Dr. Jack Newman’s Guide to Breastfeeding (chamado The Ultimate Breastfeeding Book of Answers nos E.U.A.)

Folheto #18. Como reconhecer um profissional de saúde que não apoia a amamentação .
Revisto em Janeiro de 2005
Escrito por Jack Newman, Médico, F.R.C.P.C. © 2005

Este documento pode ser copiado e distribuído sem autorização, com a condição de não ser usado em nenhum contexto em que o código O.M.S. sobre marketing de substitutos de leite materno seja violado

(um agradecimento especial à doula Natália Fialho pelo acesso a este texto)