terça-feira, 23 de maio de 2006

A amamentação selvagem

A maioria das mães que nos procura fá-lo por motivos de dificuldade na amamentação e estão preocupadas em saber como se fazem as coisas correctamente, em vez de procurar o silêncio interior, as raízes profundas, os vestígios de feminilidade e um apoio no marido/companheiro, na família ou na comunidade que favoreçam o encontro com a sua essência pessoal.

A amamentação genuína é manifestação dos nossos aspectos mais terrenos, selvagens, filogenéticos. Para dar de mamar deveríamos passar quase todo o tempo nuas, sem largar a nossa cria, imersas num tempo fora do tempo, sem intelecto nem elaboração de pensamentos, sem necessidade de nos defendermos de nada nem de ninguém, mas apenas e unicamente desaparecidas num espaço imaginário e invisível para os outros.

Isto é dar de mamar. É deixar aflorar os nossos recantos ancestralmente esquecidos ou negados, os nossos instintos animais que surgem, sem imaginar que habitavam no nosso interior. É deixar-se levar pela surpresa de vermos lamber os nossos bebés, de cheirar a frescura do seu sangue, de alternar entre um corpo e o outro, de converter-se em corpo e fluido dançantes.

Dar de mamar é despojar-se das mentiras que contámos a nós mesmas toda a vida sobre quem somos ou quem deveríamos ser. É estar descontraídas, poderosas, famintas, como lobas, como leoas, como tigres, como canguruas, como gatas. Muito relacionadas com as outras mamíferas de outras espécies no seu total apego à cria, descuidando o resto da comunidade, mas milimetricamente atentas às necessidades do recém-nascido.

Deleitadas com o milagre, tratando de reconhecer que fomos nós mesmas que o fizémos possível, e reencontrarmo-nos com o que há de sublime. É uma experiência mística se premitirmos que assim seja.

Isto é tudo o que necessita para poder dar de mamar a um filho. Nem métodos, nem horários, nem conselhos, nem relógios, nem cursos. Mas sim apoio, contenção e confiança dos outros (marido, rede de mulheres, sociedade, âmbito social) para ser uma mesma mais que nunca. Apenas a permissão para ser o que queremos ser, fazer o que queremos, e deixarmo-nos levar pela loucura do selvajem.

Isto é possível se se comprender que a psicologia feminina inclui este profundo apego à terra-mãe, que ser una com a natureza é intrínseco ao ser esencial da mulher, e que se este aspecto não se revela, a amamentação simplemente não fluie. Não somos assim tão diferentes dos rios, dos vulcões, dos bosques. Só é necessário preservá-los de ataques.

As mulheres que desejam amamentar têm o desafio de não se afastarem desmedidamente dos seus instintos selvagens. Sabemos racicionar, ler livros de puericultura e desta maneira perdemos o objectivo entre tantos conselhos supostamente “professionais”.

Há uma ideia que atravessa e desactiva a animalidade da amamentação, e é a insistência para que a mãe se separe do corpo do bebé. Contrariamente ao que se supõe, o bebé deveria ser carregado pela mãe todo o tempo, incluindo e sobretudo quando dorme. A separação física a que nos submetemos como díade entorpece a fluidez da amamentação. Os bebés ocidentais dormem no berço, no carrinho ou nas suas camas demasiadas horas. Esta conduta é simplesmente um atentado à amamentação. Porque dar de mamar é uma actividade corporal e energética constante. É como um rio que não pode parar de fluir: se é bloqueado, o seu caudal é desviado.

Dar de mamar é ter o bebé nos nossos braços, sempre que seja possível. É corpo, é silêncio, é conexão com o sub mundo invisível, é fusão emocional, é loucura.

Sim, há que ser um pouco louca para se conseguir ser mãe.

Laura Gutman
Autora Argentina de “La Maternidad y el encuentro con la propia sombra”, “Puerperios y exploraciones del alma femenina” e “Crianza, violencias invisibles y adicciones”.
Tradução e adaptação de Luísa Condeço, autorizado pela autora.

5 comentários:

Sónia Tavares disse...

Lindas palavras sobre amamentação. Vou colocar um link no meu blog de Amamentação.
Beijocas,
Sónia

Pensamentos Felizes disse...

Que texto maravilhoso. E que felicidade é amamentar. Quando amamento o meu filho é como se o cordão umbilical que nos unia nunca tivesse sido cortado. Desde que nasceu que dorme comigo, nem consigo que seja de outra maneira pois não consigo que durma na cama dele, há quem diga que faço mal porque lhe criei e crio maus hábitos mas eu acho que estamos os dois mal habituados, ambos amamos dormir completamente agarrados um ao outro. O meu marido costuma dizer que parecemos aqueles bonecos do dragon ball a fazer a fusão :)
Vou colocar um link deste texto maravilhoso no meu blog para que mais pessoas possam ter acesso a ele.
beijinho e felicidade
Cristina

~Su~ disse...

Digam-me, por favor, que no fundo, bem no fundo, vocês sabem que NÃO é assim tão simples... De outra forma, far-me-ão, a mim e a muitas outras mães, sentirmo-nos ainda mais frustradas, infelizes e profundamente tristes pelos nossos bebés... Ah se tivesse sido assim tão simples. E eu que queria amamentar PELO MENOS até a Lara ter 1 ano, mais do que tudo... Deixa-me triste haver quem pense que realmente é assim tão fácil...

Beijinhos.

Luisa Condeço disse...

Olá Su
Não, não é assim tão simples para a grande maioria das mães, tal como não foi para mim, por exemplo. Mas é para algumas mulheres. E este texto é apenas uma perspectiva diferente do que estamos habituadas. É lembrar que amamentar, parir, ser mãe, são coisas que vêm lá de dentro, do mais íntimo e escondido.
Só que dantes as mães que tinham dificuldades não tinham apoio.. e agora já vamos tendo. Para que as que desejam amamentar o possam fazer, sem dificuldades. Porque para quem não tem dificuldades, amamentar deve ser assim.... algo extraordinário e absolutamente natural. Um beijinho para ti.
Luísa

Pensamentos Felizes disse...

Su
Dar de mamar não é fácil e eu falo por experiência própria mas conheço mulheres que nunca tiveram problemas em amamentar. Nunca falei disto no meu blog mas irei falar da minha experiência de amamentar o Alexandre no meu blog. Vou deixar-lhe aqui a minha experiência que tem muito de doce e mas também tem amargo. A vida também foi cruel comigo mas em relação ao parto, Ao fim de muitas horas de trabalho de parto a obstetra de serviço resolveu fazer uma cesariana de urgência com anestesia geral porque o meu filho não desceu e já estava em período expulsivo há 1 hora. Eu não estava preparada para uma cesariana e muito menos com anestesia geral. Tenho desgosto e uma frustração enorme de não ter tido um parto natural, de ter estado inconsciente no momento mais importante da minha vida. Fiz uma depressão pós parto e recusei o tratamento com fluoxetina porque teria de deixar de amamentar. Por causa dessa depressão cheguei quase a perder o leite. Tive que complementar a alimentação do meu filho durante uns dias com leite artificial. Nesta altura o meu filho tentou rejeitar-me o peito mas como era muito importante para mim dar-lhe leite materno comecei a tirar o leite com a bomba e a complementar as mamadas com biberão do meu leite. Cheguei a levantar-me de noite 1 hora mais cedo de cada mamada para o tirar para que quando ele acordasse tivesse o leite já pronto para ele beber. Entre mamadas tirava leite para aumentar a produção. A minha vontade de amamentar foi tão grande e fui tão persistente que à força de insistir com a mama a produção aumentou e ele acabou por rejeitar o biberão e mesmo hoje é muito dificil fazê-lo aceitar um biberão de leite. O meu marido dizia-me que eu estava obcecada com a questão da amamentação e todos sem excepção diziam para eu lhe dar biberão porque o meu leite não tinha qualidade, mas para mim era demasiado importante e tentei e dei tudo por tudo para fazer o que achava melhor para o meu filho e também melhor para mim. Hoje olho para trás e vejo que valeu a pena tanto esforço e tanta vontade em amamentar. Infelizmente nem tudo são rosas e é difícil aceitar uma coisa para o qual não estávamos preparadas mas temos que continuar a viver assimilando e compreendendo tudo de bom e de mau que estas experiências nos trazem para a nossa vida para assim nos descobrirmos a nós próprias.
Um beijinho e felicidade
Cristina