terça-feira, 10 de janeiro de 2006

O Bebé Chora: Como os Pais Devem Reagir

Por Jan Hunt, Psicóloga Directora do "The Natural Child Project"

Imagine por um instante que você foi levado por uma nave espacial para um planeta distante, onde está cercado de gigantes estranhos cuja língua você não entende. Dois desses estranhos decidem cuidar de si. Você é totalmente dependente deles para a satisfação de todas as suas necessidades - fome, sede, conforto e - principalmente - para assegurá-lo de que não corre perigo nesse lugar estranho. Imagine então que alguma coisa vai mal - você está com dor, ou com muita sede ou a precisar de afecto. Mas os responsáveis ignoram seus gritos de desespero e você não consegue fazê-los compreender do que você precisa. Agora você tem um problema a mais, pior que o primeiro: sente-se totalmente desamparado e sozinho num mundo estranho.
Com toda a inocência, o bebé parte do pressuposto de que nós, seus pais, estamos certos - e que fazemos tudo o que deveríamos fazer. Se não fizermos nada, o bebé só pode concluir que não é amado porque não merece o nosso amor. Ele não é capaz de entender que nós estamos ocupados, distraídos, preocupados, mal orientados por "especialistas", ou que simplesmente somos pais inexperientes. Não importa o quanto amamos nosso bebé, o que ele entende são as manifestações externas desse amor.

Ninguém gosta que sua comunicação seja ignorada. Ser ignorado desperta sentimentos de desamparo e raiva que inevitavelmente prejudicam o relacionamento. Todos os adultos sentem isso e não há porquê imaginar que seja diferente com bebés e crianças. Pouca gente ignoraria um adulto que repetisse: "Você poderia me ajudar? Não me estou a sentir bem." Ignorar esse pedido seria considerado muito pouco gentil. Mas um bebé não pode falar assim; ele só pode chorar e chorar até que alguém o atenda - ou até desistir, desesperado.

A reação imediata ao choro de uma criança não foi questionada durante milénios, até aos nossos dias. Na nossa cultura, assumimos que o choro do bebé é normal e inevitável. Mas em sociedades naturais onde os bebés são transportados junto aos adultos na maior parte do dia e da noite durante seus primeiros meses de vida, o choro é incomum. Ao contrário do que se acredita na nossa sociedade, bebés tratados assim tornam-se auto-suficientes mais cedo do que os bebés que não recebem esses cuidados. Na verdade as pesquisas sobre as primeiras experiências da infância mostram que as crianças que receberam cuidados mais amorosos nos primeiros anos de vida tornam-se adultos mais amorosos e confiantes. Os bebés obrigados a ser submissos desenvolvem ressentimentos e raiva que podem ser manifestados de forma nociva mais tarde. Apesar dessas pesquisas, a maioria dos argumentos para se ignorar o choro baseiam-se no receio de "estragar com mimos" o bebé. Um livro clássico de cuidados ao bebé adverte os pais a "deixar o bebé lidar com seu problema". Embora a primeira infância seja uma época de desafios para os pais, um bebé é muito novo e inexperiente para "lidar" com a causa de seu choro, seja ela qual for. Ele não se pode alimentar, trocar de roupa ou confortar-se do modo que a natureza pede. É evidente que é responsabilidade dos pais preencher as necessidades de alimento, segurança e amor do bebé, e não responsabilidade do bebé preencher as necessidades de paz e sossego dos pais. A publicação insinua que se os pais derem ao bebé a oportunidade de ser auto-confiante, estão a contribuir para seu amadurecimento. Mas um bebé simplesmente não é capaz dessa maturidade. A maturidade verdadeira reflecte uma base sólida de segurança emocional que só se pode desenvolver com amor e apoio dos adultos próximos, nos primeiros anos de vida. Uma pessoa imatura só pode reagir ao stress de modo imaturo. Um bebé a quem se nega o seu direito nato de ser reconfortado pelos pais pode voltar-se para o recurso ineficaz da auto-estimulação (bater com a cabeça, embalar-se de um lado para o outro, chuchar no dedo, etc) e o distanciamento emocional das pessoas. Se as suas necessidades forem sempre ignoradas, ele pode decidir que a solidão e o desespero são preferíveis a arriscar-se a sofrer mais frustração e rejeição. Infelizmente, uma vez que ele toma essa decisão ela pode se tornar uma visão definitiva da vida, que leva a uma vida emocional muito pobre.

Muitos profissionais que lidam com crianças percebem que o incentivo dos pais à auto-satisfação, além da substituição abusiva por objectos materiais - ursinhos que substituem os pais, carrinhos em vez de braços, grades em vez de dormir junto, chupetas em vez de mamar no peito, brinquedos em vez de atenção, caixinhas de música no lugar de vozes, leite em pó em vez de leite materno, cadeira de balanço em lugar do colo - determinaram uma época de consumismo, isolamento pessoal e insatisfação emocional. Ignorar o choro de uma criança é como usar protector de ouvidos para evitar o ruído desagradável de um detector de incêndio. O som de um detector de incêndio serve para nos alertar sobre um assunto sério que exige uma atitude - o mesmo acontece com o choro do bebé. Como Jean Liedloff escreveu em 'The Continuum Concept', "o choro do bebé é um problema tão sério quanto o seu ruído sugere". Por mais stressante que seja, o choro da criança não deve ser visto como uma medição de forças entre o pai ou a mãe e o filho, mas como um presente da natureza para assegurar que todos os bebés cresçam com uma capacidade generosa de amor e confiança.
Adaptado por Cristina Carvalho

14 comentários:

ana disse...

nem imaginam como me senti bem a ler este artigo...sou adepta de atender sempre a minha filha quando ela chora. ás vezes (já são poucas) mesmo quando lhe pego ela continua a chorar, mas prefiro que chore no meu colo, do que longe de mim!
Obrigada por partilharem estas coisas importantes.

Luisa Condeço disse...

Da Inês Vaz

"Olá Luísa,

Queria colocar o meu testemunho no vosso blog, mas não estou a conseguir (tenho alguma dificuldade ainda com os blogs...). Será que o poderia colocar lá, para outras mães/grávidas o pudessem ler?

Muito obrigada!

Aqui vai:


Olá a toda(o)s,

Estive grávida pela primeira vez até ao passado mês de Abril, altura em que nasceu a minha filha. Correu tudo muito bem, tanto na preparação para o parto (que recomendo vivamente a todas as grávidas) como durante o parto. Graças às aulas de preparação, fiz o trabalho de parto todo em casa, sem "histerias" de ir a correr para o hospital à primeira contracção. Tive uma enfermeira que me acompanhou em todo o processo (uma verdadeira doula, apesar de não o ser) e que me transmitiu com grande clareza tudo o que me aconteceria durante o tp. Só fui para o hospital quando rompeu a bolsa de águas, eram 23h30...a minha filha nasceu às 3h08!
Aconteceu quase tudo conforme eu tinha idealizado, excepto um "pormenor". Durante a gravidez, pensei que não ia querer a famosa epidural, por receio de reacções alérgicas, e por achar que a mulher consegue superar a dor de parto... A verdade é que quando o anestesista chegou à sala de parto e me perguntou se ia querer epidural, nem hesitei! Disse que sim, "e o mais rapidamente possível"! Não me arrependo, até porque a partir desse momento, relaxei imenso, e consegui "curtir" aquele momento maravilhoso, que foi a chegada da minha filha.
Acho que uma doula pode ajudar imenso, apesar de não ter tido essa experiência, e concordo com quase tudo aquilo em que assenta o vosso trabalho, mas em relação à vossa apologia de não-epidural, acho que teria mais reservas, pois na hora H a grávida precisa de decidir por si própria, sem influências externas.
E pronto, é este o meu testemunho.

Um abraço
Inês

E tal como fiz na carta à Inês deixo aqui um esclarecimento relativamente à epidural:

As doulas não incutem as suas crenças, prestam apoio emocional e informativo. Isso quer dizer que quando nos perguntam se somos contra ou a favor de algo, nós respondemos que somos pela mãe e pelas suas decisões informadas e conscientes.
Se uma mãe disser que quer epidural nós não somos contra, nunca. Até se uma grávida desejar marcar uma cesariana (o que já me aconteceu) o meu dever é respeitar essa decisão.
O que, claro não me impede de informar a mãe dos prós e contras de determinados procedimentos, se assim ela o desejar.
Relativamente à epidural, esta é realmente um bom método de alívio da dor, mas que, claro, não está isento de riscos. A mãe deve escolher o que deseja para si, sabendo os riscos que corre, e as vantagens da mesma. Só assim podemos escolher livremente e conscientemente.
Mas não somos contra a epidural, de modo nenhum. Cada indivíduo sabe o que mais precisa em determinado momento da sua vida, incluindo o parto e gravidez, na mulher.
Desta forma a mulher decide por si própria, sem influências excepto as das evidências científicas. Que deveriam reger a medicina em geral o que muitas vezes não acontece.
Um abraço para si Inês!

Mamã Babada disse...

Olá! Este post veio mesmo a calhar!
Estou a passar por um "momento complicado". A minha filha (quase 3 meses) chora imenso e quando não lhe pegamos ao colo ela amua e berra imenso. Chora tanto que fica roxa e com falta de ar. Coisa que não lhe falta é amor e carinho. Passo a maior parte do tempo com ela ao colo, parece que só está bem se lhe pegarmos.Quando está a chorar muito, se lhe pegar ao colo ela cala-se automaticamente. Não sei bem o que fazer. Penso que no caso dela é mesmo manha.
O que acham que devo fazer?

Mamã Babada disse...

Sou mãe de uma bebé de 3 meses.
A minha filha chora imenso. Se não lhe pegarmos ao colo ela desata num berreiro. Chora tanto que fica roxa e com falta de ar. Estou sempre a ver quando é que a rapariga vai ter uma paragem respiratória. Chega mesmo a fingir que chora. Não será capricho dela? Se lhe pego ao colo ela cala-se imediatamente.
Acham que devo pegar nela sempre que chora e atender aos seus "caprichos"?

Bjs

Arte da Luluzinha disse...

Gostei muito do texto e também fui daquelas mães que atendiam sempre o bebê quando chorava. Hoje minha filha tem 13 anos e não me arrependo dos mimos que a dei.
Um abraço a todos.

ezequias disse...

adorei esta mensagem. Realmente é muito bom saber que existem pessoas que amam as crianças e as compreendem. Eu como pai me senti um ignorante ao comparar minhas atitudes com o que acabei de ler.

Dulce disse...

olá!!!
gostei imenso do texto que li, pois tenho uma menina quase de 4 meses e tem dias muito complicados, pois chora e so quer estar ao nosso colo de virada de barriga para baixo, damos-lhe imensa atenção e amor, as vezes ja choro eu porque n sei o que lhe hei-de fazer...
obrigado

simone disse...

Olá! Gostei bastante do texto. Sou mãe de uma bebê de 7 meses, que é muito parecida com a bebê da Mamãe Babada, que cita acima. Ela só para de chorar quando a colocamos no colo e muitas vezes finge estar chorando(tanto que não escorre uma só lágrima)para pegá-la no colo. Será só capricho, manha? O que fazer??? Muitos dizem para mim que tenho que deixar até ela parar, mas ela grita muito alto e penso até que os vizinhos acham que a estou maltratando. O que eu faço?
Obrigada desde já.

Cristina Silva disse...

Olá Simone

O meu nome é Cristina e sou doula.
tem um email que me possa facultar? Gostaria de trocar umas palavras consigo de forma a poder ajudá-la.
um abraço,
Cris

Cristina Silva disse...

Simone,
Esqueci de colocar aqui o meu email: doula.cristinasilva@gmail.com

Tuty disse...

O texto tem sua valia, mas há um certo exagero ! Parece que somos os grandes culpados pelo choro d nossos filhos, sendo q muitas das vezes fazemos de tudo e ainda assim eles choram ! Minha filha com 3 meses chora pois só quer ficar em pé. Essa técnica de carregá-la no colo não funciona, ela não quer ficar deitada.
Cada bebê é uma experiência diferente, não devemos generalizar.

ROCHELI disse...

Olá, tenho uma filha de 4 anos e 8 meses, e só agora tenho comigo a dificuldade de uma crinça chorona,ela sempre foi muito independente e brincalhona, mais ultimamente eu optei em trabalhar em casa e dar atençao ha ela, mas foi pior pois ela ve que eu Trabalho muito, e pede meu colo e atençao o tempo todo, chora muito por nada, e percebi que msm em casa atendendo as sua dificuldadess nao estou dando a atençao que ela pede. Muitas vezes me falta paciência com os pedidos dela e ela sabe que stou dando atenção as minhas clientes e ai chora e chora, o texto fala muito bem explica de forma muito embasada e emgloba ate msm as crianças maiores comoa minha, obrigada por pea dedicação e espero que meu comentario ajude a outras maes tmb.Grande a abraço a todos que se preocupam e que rem o melhor para seus filhos.

Sanny Marley disse...

minha filha tem 40 dias e chora até ficar roxa,ela quer sempre ficar no peito e isso me cansa,ela fez do meu peito um bico pra ficar chupando e se eu a retiro do peito é um berreiro só,o que posso fazer?

Sandy disse...

Sou mãe pela segunda vez e tal com o no primeiro, ambos os meus filhos são muito chorões e nem ao colo se calam. Tenho um menino com 3 meses, e é extremamente dificil fazer com que deixe de chorar, nem ao colo, nem com mimos, estou a entrar em desespero ...
Alguem faz milagres ...